Quebrando o Silêncio 2026: a história de uma menina que encontrou nos idosos o caminho para transformar sua própria vida

Por Charles Manga | Rádio Ativa ES


Entre a dor, o abandono e a fé, Dra. Graziele Polinário revela como idosos mudaram sua história


O que deveria ser apenas uma palestra sobre os direitos e a proteção da pessoa idosa se transformou em um dos momentos mais emocionantes da programação do Quebrando o Silêncio 2026, realizada na Igreja Adventista Central de Vila Velha.

A esposa do Pastor Maikon, departamental de educação das Escola Adventistas da Associação Sul Espiríto Santense, fromada em Direito, Dra. Graziele Polinário decidiu abrir o coração diante do público e contar uma história que, segundo ela, não estava preparada para compartilhar na manhã deste sábado (22). Uma história de pobreza, violência, abandono, perdas e dificuldades, mas também de fé e principalmente, de idosos que se tornaram instrumentos fundamentais para mudar o destino de uma criança.

Eram pessoas que não tinham riquezas, mas que ofereceram aquilo que tinham: tempo, carinho, alimento, roupas, proteção, oração e esperança.

Graziele contou que cresceu no interior de Minas Gerais, em uma família marcada por profundas dificuldades. Depois da separação dos pais, ainda criança, passou a viver com a avó. A avó, que sustentava a família com apenas um salário mínimo, cuidava de Graziele, do irmão e de outros familiares. Dentro de casa, também enfrentava problemas com um neto que havia entrado no mundo das drogas e apresentava comportamento agressivo. Era uma realidade de extrema vulnerabilidade.

Mas, em meio às dificuldades, Graziele encontrou na Igreja Adventista um espaço de acolhimento.

Foi através do Clube de Desbravadores que ela teve o primeiro contato com a igreja. E foi justamente ali que começaram a surgir pessoas que fariam uma diferença definitiva em sua vida.

Entre essas pessoas estava José Guilherme, um senhor de 75 anos. Graziele contou que sua família não tinha condições financeiras para comprar sequer os materiais necessários para participar das atividades dos Desbravadores. Foi então que José Guilherme começou a ajudá-la. Ele comprava tênis, uniforme e materiais necessários para o clube. Levava a menina, junto com sua família, para visitar igrejas do interior. Enquanto ele pregava, Graziele participava das atividades e aprendia a Bíblia.

Mas não era apenas ele.

Idosas da igreja também passaram a fazer parte daquela história. Mulheres que costuravam roupas para Graziele, ajustavam as peças e preparavam tudo para que ela pudesse frequentar os cultos. Aquelas pessoas talvez não soubessem, naquele momento, o tamanho do impacto que estavam causando. Mas estavam ajudando a construir o futuro daquela menina.

“Eles me ajudaram a permanecer na igreja”

A infância de Graziele também foi marcada pela dificuldade de construir vínculos com pessoas da mesma idade. Ela contou que, por ter crescido ao lado da avó, acabou desenvolvendo uma ligação muito forte com os idosos. Gostava de conversar com eles, pentear o cabelo da avó, cortar suas unhas e ajudá-la nas tarefas do dia a dia. Era naquele universo que ela encontrava segurança e afeto. Mas sua permanência na igreja também enfrentou obstáculos.

Graziele relatou situações em que chegava da igreja e encontrava a porta de casa trancada. Em outras ocasiões, não podia comer determinados alimentos preparados em casa por questões religiosas. E, mais uma vez, eram os irmãos da igreja que a acolhiam. A menina que poderia ter desistido encontrou pessoas que insistiram em mostrar que ela tinha um lugar.

A última decisão da avó

A história alcançou um dos momentos mais dolorosos quando Graziele contou sobre a doença da avó. A mulher que havia sido sua principal referência familiar enfrentava um câncer no esôfago. Graziele não sabia da gravidade da doença, porque familiares tinham medo de contar e provocar sofrimento ainda maior. Até que chegou um dia diferente. Graziele não estava animada para ir ao acampamento dos Desbravadores. Mas sua avó insistiu:

“Hoje você vai. Você sempre quis ir para a igreja. A igreja sempre transformou a sua vida. Hoje você vai.”

Naquele dia, algo também chamou a atenção de Graziele: sua avó separou as melhores vasilhas e alimentos que tinha para que ela levasse ao acampamento. Era algo que nunca havia acontecido antes. Graziele saiu de casa sem imaginar que aquela seria a última vez que veria a avó. Pouco depois, descobriu que ela havia sofrido um AVC e sido levada para atendimento médico.

A menina foi para o acampamento.

Durante a madrugada, em meio a uma forte chuva que destruiu barracas e molhou os pertences dos participantes, chegou a notícia: sua avó estava em estado grave e queria vê-la. Quando Graziele conseguiu chegar, porém, sua avó já havia falecido. Ela não teve a oportunidade de se despedir.

Uma coberta e uma promessa

Mas sua avó deixou algo para ela. Uma coberta.

E junto dela, uma mensagem que Graziele jamais esqueceu. Segundo o relato da palestrante, a avó havia deixado palavras relacionadas ao sonho que a neta tinha de estudar em uma escola adventista. Mesmo sem recursos financeiros, aquela mulher acreditava que o sonho poderia se tornar realidade.

E Graziele contou que recebeu também uma mensagem ainda mais profunda: a avó entendia que a neta estava pronta para seguir sua caminhada porque havia encontrado Deus e uma comunidade que a acolhia. Aquela despedida se transformou em uma espécie de legado. Uma mulher simples, com poucos recursos, havia ajudado a formar uma história que chegaria muito além daquela pequena casa no interior de Minas Gerais.

Foi nesse momento que a palestra sobre violência contra idosos ganhou outro significado. Para Graziele, falar sobre proteção à terceira idade não é apenas falar de leis, direitos e garantias. É falar de pessoas. É falar daqueles que muitas vezes são invisíveis dentro de suas próprias famílias.

É falar de homens e mulheres que podem carregar histórias de abandono, violência, solidão e sofrimento, mas que continuam tendo valor, dignidade e propósito.

“Eles são instrumentos tão poderosos nas mãos de Deus. Eles são amáveis. Eles são uma bênção do Senhor”, afirmou Graziele.

A mensagem da palestrante encontrou um ponto central na campanha Quebrando o Silêncio 2026: violência contra idosos não deve ser naturalizada, escondida ou ignorada. Mas a proteção também começa antes da violência. Começa na visita. Na conversa. No abraço. Na paciência. Na disposição de ouvir uma história que já foi contada muitas vezes. Começa quando uma família percebe que aquele idoso que parece precisar de cuidados é, muitas vezes, a mesma pessoa que passou décadas cuidando de todos.

Ana, Barzilai e uma lição para a igreja

Durante a palestra, Graziele também apresentou as histórias bíblicas de Barzilai e Ana, a profetisa, mostrando que a Bíblia não apresenta a velhice como o fim do propósito. Ana, mesmo idosa e viúva, permanecia no templo, orando e servindo a Deus. Foi justamente naquele período da vida que ela testemunhou a chegada de Jesus e anunciou sua importância.

A mensagem é clara: idade não significa ausência de propósito.

Para Graziele, os idosos continuam sendo fundamentais dentro das igrejas, muitos são os primeiros a chegar, os primeiros a orar, os primeiros a oferecer um estudo bíblico e aqueles que permanecem firmes mesmo quando as limitações físicas aparecem.

A programação do Quebrando o Silêncio 2026, na Igreja Adventista Central de Vila Velha, também contou com a participação musical da cantora Luiza Littig, da Igreja Adventista de Jardim Camburi, contribuindo para o ambiente de reflexão e espiritualidade vivido durante o evento.

A história contada por Graziele Polinário deixa uma pergunta para cada família:

Quem está cuidando dos idosos da sua casa?

Não apenas quem compra seus medicamentos.

Não apenas quem acompanha uma consulta.

Mas quem conversa?

Quem escuta?

Quem visita?

Quem abraça?

Quem pergunta como foi o dia?

Porque a violência contra a pessoa idosa nem sempre começa com uma agressão.

Às vezes, começa com a indiferença.

Com o abandono.

Com o silêncio.

Com a sensação de que aquela pessoa deixou de ser importante.

E foi justamente contra esse silêncio que Graziele levantou a voz em Vila Velha.

Sua história mostrou que, em algum momento da vida, um idoso pode ser a pessoa que estende a mão para uma criança sem recursos, compra seu primeiro tênis, costura sua roupa, oferece uma carona, ensina uma lição bíblica ou simplesmente acredita em seu futuro.

No caso de Graziele, foram esses idosos que ajudaram a construir a mulher que hoje ocupa um púlpito para defender justamente aqueles que um dia acreditaram nela.

Quebrar o silêncio é também reconhecer quem nunca deixou de falar através de suas próprias histórias.


Lucas Charles Manga | Rádio Ativa ES
Vila Velha — Espírito Santo
Quebrando o Silêncio 2026

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