Pazolini ironiza Cariacica em entrevista e reacende disputa política com Euclério Sampaio
Postado 19/08/2026 20H22
Candidato ao Governo do Estado, ex-prefeito de Vitória é questionado sobre Cariacica e adota tom de ironia ao mencionar município comandado por seu adversário político
Por Charles Manga
A entrevista de Lorenzo Pazolini à TV Vitória, realizada nesta quarta-feira (19), entrou no terreno da disputa política que antecede as eleições para o Governo do Espírito Santo. Em determinado momento da conversa, ao fazer referência a Cariacica, o candidato do Republicanos teria recorrido à expressão “meu amor”, em um tom interpretado como irônico por observadores da cena política capixaba.
A manifestação ganha peso justamente pelo histórico de divergências entre Pazolini e o prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio. A relação entre os dois políticos está longe de ser amistosa e já foi marcada por críticas e provocações públicas, em meio à disputa pela liderança política da Grande Vitória e à sucessão estadual.
A entrevista ocorreu no momento em que Pazolini tenta se apresentar ao eleitor capixaba como alternativa para comandar o Palácio Anchieta. A própria Rede Vitória destacou que a conversa tinha como objetivo discutir temas como segurança pública, saúde, educação, economia e desigualdades.
“Meu amor” e a disputa com Cariacica
A utilização da expressão, caso interpretada como ironia, chama atenção porque Cariacica não é apenas mais um município no mapa eleitoral do Espírito Santo. É uma das cidades mais populosas da Grande Vitória e possui peso político e eleitoral significativo.
E é justamente nesse ponto que a fala pode produzir um efeito contrário ao pretendido.
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Ao tentar ironizar um adversário político, Pazolini corre o risco de transmitir ao eleitorado de Cariacica a impressão de que a cidade e seus problemas são tratados com desdém. Para um candidato que pretende governar todo o Espírito Santo, a escolha das palavras ganha ainda mais importância.
A disputa entre Pazolini e Euclério não é recente. Em março de 2025, por exemplo, o Folha Vitória já registrava uma série de provocações públicas envolvendo os dois grupos políticos. Na ocasião, Euclério fez críticas indiretas ao prefeito de Vitória durante a inauguração do Mercado Municipal de Cariacica, em um episódio inserido na disputa política que começava a ganhar força de olho nas eleições de 2026.
De prefeito da Capital a candidato ao Governo
A questão central para Pazolini, agora, é que o discurso de candidato a governador precisa ser diferente do discurso de um prefeito da Capital. Como prefeito de Vitória, Pazolini tinha como principal responsabilidade uma cidade específica. Como candidato ao Governo do Estado, precisa dialogar com eleitores de Cariacica, Vila Velha, Serra, Viana, Guarapari, Linhares, Colatina, Cachoeiro de Itapemirim e de todos os demais municípios capixabas. É justamente por isso que a fala sobre Cariacica pode ser explorada politicamente por seus adversários.
A pergunta que fica é: Pazolini está conseguindo apresentar um projeto para o Espírito Santo inteiro ou ainda fala politicamente a partir da perspectiva de Vitória?
Essa é uma questão especialmente relevante porque sua trajetória política está fortemente associada à Capital. Pazolini foi prefeito de Vitória e deixou o cargo em abril de 2026 para disputar o Governo do Estado.
O risco de parecer que o Espírito Santo termina em Vitória
Para adversários e críticos, o episódio pode alimentar uma narrativa incômoda para a campanha de Pazolini: a de que o candidato conhece e prioriza a realidade da Capital, mas ainda precisa demonstrar capacidade política para compreender as diferentes regiões do Estado.
Não se trata apenas de Cariacica.
Um governador precisa administrar conflitos metropolitanos, articular investimentos entre municípios e compreender que as prioridades de Vitória não são necessariamente as mesmas de Cariacica, Serra, Vila Velha, Viana ou das cidades do interior.
Nesse sentido, uma declaração aparentemente pequena pode adquirir dimensão eleitoral.
O eleitor pode interpretar a ironia como simples provocação política. Mas também pode enxergar nela um sinal de postura pouco conciliadora justamente em um momento em que o candidato precisa ampliar seu eleitorado para além de sua principal base política.
Experiência política em xeque
Outro aspecto que pode ser explorado pelos adversários é a maturidade política demonstrada durante a entrevista.
Pazolini tem experiência administrativa e política: foi deputado estadual e comandou a Prefeitura de Vitória por dois mandatos. Portanto, não se trata de um estreante na vida pública.
Mas a experiência necessária para governar um município não é exatamente a mesma exigida de um governador.
O governador precisa negociar permanentemente com prefeitos de diferentes partidos, deputados estaduais e federais, empresários, movimentos sociais e lideranças regionais. Precisa, sobretudo, construir pontes com municípios governados por adversários.
Por isso, uma provocação direcionada a um prefeito com quem mantém divergências pode ser vista como politicamente desnecessária.
A crítica que começa a surgir é que Pazolini poderia ter aproveitado a pergunta para apresentar uma visão de Estado para Cariacica, em vez de transformar a resposta em mais um capítulo da disputa pessoal e política com Euclério Sampaio.
Cariacica não é apenas Euclério
Há ainda uma diferença importante: criticar Euclério Sampaio não significa criticar Cariacica.
A cidade possui centenas de milhares de eleitores e uma realidade social, econômica e urbana própria. Vincular a cidade ao seu prefeito pode ser um erro estratégico para qualquer candidato.
Se Pazolini pretende conquistar votos em Cariacica, precisará conversar diretamente com a população do município, independentemente da relação que mantenha com o prefeito.
O mesmo vale para qualquer cidade do Espírito Santo.
A eleição para governador não será decidida apenas em Vitória.
A resposta que a campanha precisará dar
A entrevista desta quarta-feira coloca Pazolini diante de um desafio que vai além de uma frase ou de uma provocação.
O candidato precisará demonstrar que sua candidatura não é apenas uma extensão da política da Capital para o restante do Estado.
A campanha terá de responder a uma pergunta simples, mas decisiva:
Qual é o projeto de Pazolini para um Espírito Santo que começa em Vitória, mas está muito longe de terminar na Capital?
A resposta terá de passar por Cariacica, Serra, Vila Velha, Viana, Guarapari e também pelo interior.
Politicamente, talvez seja justamente esse o ponto mais delicado da declaração.
Ao ironizar Cariacica para atingir Euclério Sampaio, Pazolini pode ter conseguido provocar seu adversário. Mas corre o risco de provocar também uma parcela do eleitorado que pretende governar.
E, em uma eleição estadual, transformar uma disputa entre políticos em uma impressão negativa sobre uma cidade inteira pode ser um preço alto demais para uma frase de efeito.
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